Como prometido, segue a peregrinação por Buenos Aires. O assunto sério de hoje é CARNE. Um monte de gente me falou: “ah, mas você vai enjoar de tanta carne, é pesado, é isso, é aquilo.” Eu só escutei, quieta. Ô pessoal que não me conhece. Além de não enjoar, passaria o resto do ano experimentando carnes assim. Na boa, os caras são MUITO BONS. Claro que tem os lugares turísticos, os lugares que não valem a pena, etc etc etc. Para isso, estou aqui! Vamos lá:

O primeiro deles- DON JULIO.  A primeira coisa que se nota são as mesas cobertas com couro de boi, para mostrar que o assunto ali é sério. E a primeira coisa que se escuta é castelhano. E não inglês. (claro que o lugar ficou famoso, conhecido,etc etc etc, MAS ainda conserva um ar de bairro, de gente que se conhece faz muito tempo, de cliente que abraça o garçon amigo, servindo a mesma mesa por anos e anos. E eu ADORO isso!) . Aí vem uma entradinha ARREBATADORA- a PROVOLETA DE QUEIJO DE CABRA. Não dá para ir no Don Julio e ficar sem a provoleta! Simplesmente não dá. Dispensem a sobremesa. Mas comam a PROVOLETA, duas, três. Arrumem espaço. Quem avisa amigo é. O queijo deliciosamente tostado e macio por dentro, vem em charmosas frigideirinhas individuais- depois, a atenção vai para a parrila. Logo ali, à vista do cliente. O lugar pode se tornar quente, com tanto carvão e fogo, por isso que eu disse que Buenos Aires combina com inverno. Simplesmente combina.  Mas até esqueci da temperatura vendo os caras trabalharem. A precisão, o controle do fogo. Eu não sou boa churrasqueira. Poucas mulheres são, não sei porque. Talvez nos falte a característica básica para a parrila: a PACIÊNCIA!!!!!!!!!!! enfim, fiquei lá, encantada com o fogo e a provoleta. Aí é só se concentrar em qual corte de carne escolher (será que tem algum que não seja maravilhoso?) O Fábio aprendeu por lá a pedir a ENTRAÑA- e eu a pedir OJO DE BIFE. E assim estivemos por todos os lugares que fomos. ENTRAÑA E OJO DE BIFE. Desmancha na boca. Com aquele gostinho de tostado na medida certa. E também não entendo, apenas não entendo, quem pede uma carne bem passada…aí já era,né? O que tinha de maciez, profundidade, sabor…se perde para sempre.  E até o detalhe da faca é especial. Gravado com o nome DON JULIO e feita especialmente para casa, dá vontade de sair com várias. Mas, confesso, bebi vinho, e minha percepção foi ficando um pouco para trás. E como todo restaurante de parrilla, o CHIMUCHURRI já fica na mesa. O tradicional molhinho dos argentinos. Bom para caramba, uns melhores, uns piores. Como tudo,né? O do Don Julio é EXCELENTE.  Ah, não poderia deixar de falar: as SALADAS FRESQUÍSSIMAS são temperadas na mesa e voce escolhe qual azeite quer usar. Arbequina (que eu já conhecia da Espanha) ou Arauco- variedade de azeite da região de Buenos Aires. Um azeite surpreendente. POR QUE POR QUE não temos um DON JULIO por aqui?????????

Em segundo lugar, vamos para o LA CABRERA. Aqui, sim, o único idioma da noite, foi o INGLÊS. O lugar é lotado, lotado de turistas e brasileiros. Mas nem por isso, se torna um lugar bobo, impessoal. Longe disso. Apenas passa a ser um lugar mais cosmopolita, com gente bonita e um dos ambientes MAIS CHARMOSOS que fomos. Sei que só casca não adianta, tem que ter conteúdo. E o LA CABRERA tem. Quem está lá na parrila, sabe o que está fazendo. E é DELICIOSO. Dica: NÃO PEÇAM nada, nada de entrada. TODAS as carnes do LA CABRERA vem acompanhadas de várias saladinhas, picles, molhinhos disso e daquilo. No máximo, para alguns esganados como nós, peçam a linguiça ou a morcilla grelhada. E depois, espaço para as carnes. Outra vez: tostadinhas, derretendo por dentro. E claro, um excelente chimichurro- esse sim, lembrei de comprar para trazer para casa. Dizem por aí que o flã deles é sensacional. Não sei. Vi na lousa – degustação de sorvetes- e achei mais levinho para acabar a noite, depois da comilança. Percebi uma movimentação nas minhas costas, as mesas ao lado (já que são todas bem próximas) estavam TODAS olhando para a gente- e aí eu entendi. Eram OITO O-I-T-O bolas de sorvete. Como alguém possivelmente come aquilo??????? Enxerguei uma mesa de OITO MULHERES. Inglesas. Tinham acabado de acabar a orgia das carnes. Foi para lá que levei SETE BOLAS. A oitava (de doce de leite) nós comemos, mas elas não iam saber,né?- decisão certa. Depois de quatro segundos, as bolas de sorvete tinham desaparecido. Quem for para o LA CABRERA, já sabe: peça o flã!!!!!!!

PATAGÔNIA SUR- Esse era o meu sonho de consumo. Restaurante do famoso chef argentino Francis Mallmann , que tenho os ABSURDOS E MARAVILHOSOS livros de COZINHA ARGENTINA- SETE FOGOS, CHURRASCO AO ESTILO ARGENTINO (um dos meus melhores livros, aliás) e, obviamente, faz dois anos que sonho em conhecer o Patagônia Sur. Reservei. Sábado a noite. Chegamos de táxi. O taxista falou- melhor conferir lá dentro porque parece que está fechado. Não, impossível, nós reservamos. Obrigada, boa noite. E entramos. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o silêncio. Onde estava o burburinho de um sábado a noite, em um restaurante? Garçons, copos, talheres, enfim, os ruídos que são uma das minhas coisas favoritas? Não estava. O restaurante não estava fechado. Mas, inexplicavelmente, só tínhamos nós dois parados, ali na porta. Veio a moça, elegante. Sua mesa, Sr. Fábio. Pode escolher. Sim, claro que podemos escolher. Não tem mais ninguém…Pergunta básica: Chegamos cedo? (eram DEZ HORAS DA NOITE!)- ” Não, chegaram tarde…teve um casal que veio jantar as oito e agora tem só vocês.” Eu olhei para o Fábio sem saber o que fazer. Ele sabia da minha fissura em conhecer o restaurante do Mallmann- já que o outro fica em Punta del Lesta e nós não vamos para lá. Ficamos.

Depois desse susto inicial, começamos a reparar no ambiente. Sem dúvida nenhuma um dos lugares mais bonitos que entrei, chique, sem ser enjoado, acolhedor, ambiente incrível. O cardápio tinha várias coisas dos meus amados livros…coisas que já cozinhei várias vezes aqui em casa – eu estava feliz, sem levantar os olhos para o Fábio. Erro meu. Quando olhei para a cara dele, estava roxo, meio lilás, com um repuxado na boca que eu já conheço bem: se chama SÍNDROME DO PREÇO. Conhecem? Se o restaurante é MARAVILHOSO e o preço é JUSTÍSSIMO (caso dos dois outros acima!) ele fica levemente vermelho, com as bochechas rosadas, e um leve sorriso permanente no rosto. Se o restaurante é caro, mas pagável, ele fica apenas lilás e o sorriso fica a meio caminho entre a boca e o nariz. Por isso, eu sabia que a coisa era séria e que iríamos gastar nossa viagem para Buenos Aires, porque ele estava não lilás, MAS ROXO, como nunca vi e o repuxado na boca não deixava dúvidas: aquilo, em definitivo, não era nem um meio sorriso. Perguntei com calma, como se não estivesse desconfiando de nada: quer uma água, Fábio? Está passando bem? e ele respondeu: “Não peça mais nada, não peça água, não peça vinho, não peça nada. Ficamos só com a comida está bem? ” Claro, senhor. Comemos uma pedra de sal, mas não queremos bebidas. Somos assim. Gostamos de passar sede.

Brincadeiras (ou quase) a parte, o restaurante É SIM, CARÍSSIMO. E a não ser que você seja absolutamente fã dele ou do livro dele, realmente não vale a pena. Vem daí o ABSURDO VAZIO de um lugar tão maravilhoso, com comida ótima-  MAS diga-se de passagem que nenhum dos outros dois fica DEVENDO NADA em relação ao PATAGONIA SUR. Eles deveriam se equivaler em preço, um pouco mais em um, um pouco menos em outro, mas parecidos. E me custa admitir isso- MAS FICO COM OS LIVROS. Infelizmente. Não entendo o porque de um lugar ser tão absurdamente caro assim. O Fábio comeu de entrada (senhores, um aviso: está claro que NÃO ESCOLHEMOS ter entradas. È UM PREÇO FECHADO- que TEM QUE ter a ENTRADA, O PRINCIPAL E A SOBREMESA, certo? Senão, provavelmente, teríamos ficado com um único prato, dividido, e no máximo, duas sobremesas.) QUEIJO DE CABRA GRATINADO- certo que de extrema qualidade. E eu comi as famosas beterrabas tostadas do livro dele, com queijo de cabra macio. Posso falar? As beterrabas TOSTADAS que eu faço COM O LIVRO DELE, estavam melhores…o seu chef da noite, não tostou as beterrabas. Elas estavam cozidas al dente. Mas apenas cozidas. Decepção. Prato principal- eu comi um corte de carne, digamos, difícil, por isso, você não escolhe o ponto, tem que ser o ponto que o chef sabe dar. E vinham acompanhadas das mais do que famosas BATATINHAS DOMINÓ, meu prato eu escolhi por isso- não consigo executar as batatinhas dominó. E queria ver com meus próprios olhos. DELICIOSAS, a carne também. O prato do Fábio foi um cordeiro da Patagônia, no vinho. Sem palavras. Realmente bom.

E antes de ir para a sobremesa, aviso que o maitre, garçon e barman (afinal, só tinha ele na sala- só tínhamos nós) nos presenteou com uma ótima cervejinha, afinal, estranho não beber nada…

E de sobremesa, ÓBVIO que pedi o FLÃ – eu FIZ esse flã, que ESTÁ  NO MEU SITE, entre os 365 malucos bolos que fiz em 365 dias. Esse flã é um deles. Basta vocês irem em receitas que vocês acham o flã.

MAS, CONFESSO, CONFESSO, dentro da minha humildade de cozinheira, que o do PATAGONIA SUR estava melhor. Foi, sem dúvida o melhor flã da minha vida. Para os íntimos, no Brasil, PUDIM. O dele é feito com o EXCELENTE DOCE DE LEITE ARGENTINO (também feito na casa) e servido com mais uma colherada bem generosa  EXTRA do doce de leite. Ah, se pudéssmos frequentar o Patagônia Sur só para o flã com um vinho do Porto talvez, em um fim de noite…

Assim encerramos nossa história com o Patagônia Sur. No pudim, o rosto do Fábio já estava apenas lilás, efeito do açúcar. E o repuxado na boca tinha desaparecido. Ainda bem. No dia seguinte, comemos empanadas  a quatro reais cada e bebemos apenas água. Queria ver o Fábio novamente com cor de pele!

Outra dica é o LO DE JESUS. Pensem em um ambiente OPOSTO ao PATAGONIA SUR e estará no LO DE JESUS, mas ainda assim, charmoso, com cara dos bons e velhos restaurantes antigos, que souberam se manter bem longe de estar decadentes, se renovaram e encontraram a fórmula mágica: BONS PREÇOS, BOA COMIDA, RESTAURANTE LOTADO. Não posso falar dele tão atualizada como fiz com os outros três, porque não deu tempo de ir dessa vez, estive lá em 2007- mas pelo que parece, continua bom como sempre. Para um jantar desencanado. Ou para ir beber e comer tapas, eles tem uma EXCELENTE seleção de frios. Super recomendo.

E tive que deixar para trás pela SEGUNDA VEZ, o LA BRIGADA, restaurante que quero ir faz muiiiiiito tempo. Mas me desanimo quando escuto que DOMINGO não vale a pena porque é MUITO LOTADO ( dia da feira de San Telmo)- e nós só tínhamos domingo. Então, mais uma vez, ficou a história do- na próxima vez…

E eu ainda andei pela cidade degustando MILANESAS, EMPANADAS E SORVETES DE DOCE DE LEITE. Aguardem. Se eu não explodir antes!

Categories: Viagens

2 Responses so far.

  1. Luciana disse:

    Muito, muito,muito bom seu texto! Sua descrição do Don Julio e La Cabrera foi perfeita, me senti lá novamente (graças a Deus, lugares assim são inesquecíveis).
    Ufa…ainda bem que não deu tempo de ir no Patagonia Sur…Salva pelo gongo.

  2. Therezinha disse:

    OK, quando eu for, nada de Patagonia Sur, nem norte nem leste nem oeste.Acho que eu tb ficaria roxa, com sorriso de cara de bunda, ou, ao ver o cardápio e os preços, talvez até eu falasse assim: Ah, estamos esperando amigos e vamos esperar lá fora, e aí eu saía de fininho…hehehehe. Ou: Ah! esqueci o cartão de crédito, volto amanhã!….

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