São infinitas histórias que me unem para sempre à Barcelona. Afinal foi nessa cidade catalã que resolvi estudar gastronomia (Espaisucre), fiz meus primeiros estágios em cozinha, matei meus primeiros siris e vi que tinha jeito para a coisa. Fiz grandes amigos, bebi muito vinho, aprendi a “sair de tapas”, me perdi em suas ruas e mercados antigos. Vivi em um dos lugares mais inusitados da minha vida: um prédio com mais de 500 anos de existência, de pura pedra, em frente a Catedral gótica. Abria a janela e todos os sons dessas ruas antigas entravam pelas paredes. O padeiro que gritava alguma coisa, o cheiro de café se espalhava, os mesmos rostos de tão vistos todos os dias pela manhã, já se tornavam amigos, mesmo que eles nunca tivessem olhado dois andares para cima e vistos, pregados a minha janela, a bandeira minúscula do Brasil ( um pouco de pátria, sempre devemos ter!). Eu sabia quem ia trabalhar de bicicleta, sabia de cor a velhinha mal humorada que não gostava de bicicletas confundindo seu caminho e tentava, em vão, derrubar o bicicleteiro com bengaladas…(sério!), sabia, enfim, a vida que transcorria calma e igual todos os dias, pelas manhãs. A tarde, tudo mudava. Como uma outra cidade, vista da mesma janela- turistas, muitos, risadas, alguns” borrachos” pelo caminho, as vezes, um saxofone, as vezes, um violino. Até que a noite chegava…eu sabia que nos bares, Barcelona estava fervilhando. Mas naquele trecho da minha rua, tudo se enchia de passado, a rua permanecia imóvel, com sua luz dourada, deixando todo meu prédio pertencendo a outra época. Só as gárgulas da Catedral saiam da sua imobilidade diurna para voar…talvez o efeito do vinho, vocês estejam pensando, mas só tendo vivido aí para saber. Com o sino da madrugada. Sons velhos. E talvez por tudo isso, seja tão difícil para mim escrever sobre Barcelona. Uma declaração de amor é sempre mais difícil, nunca está à altura… mas eu tinha que começar um dia. Escolhi hoje- lendo e relendo minhas histórias, tenho uma saudade que dói, de anos e anos que ficaram para trás.  Aos poucos, vou escrevendo essa história para vocês- muitas já estão espalhadas pelo ovos quebrados, quando eu estava fazendo um bolo por dia, mas sei que está na hora de unir tudo de novo.

Claro, o BAIRRO GÓTICO e MEU LUGAR PREFERIDO:  Santa Maria del Mar. Essa praça charmosíssima, com a Igreja que lhe dá o nome, cheia de bares de vinho, esperando o sol cair. É contornando seus muros, que vamos a um dos segredos mais bem guardados: A CASA GISPERT. Eu não me lembro de ter sentido na vida, um cheiro melhor do que esse. Eu NÃO estou exagerando. O forno, coração e alma do lugar, está plantado ali desde 1851, torrando as mais maravilhosas avelãs, amêndoas, castanhas. Como eu morava perto, sabia pelo cheiro, a hora de chegar ali: para ver o forno funcionando e lotar saquinhos e mais saquinhos dessas amêndoas perfumadas, únicas. Eu queria trabalhar aí, ficar colada nesse forno, aprender seus truques…mas meu catalão nunca deu nem para o início. Fiquei amiga de todos ali, passava várias vezes ao dia, indo e vindo da minha escola de cozinha. Até as avelãs, da fornada que eu perdia, eles guardavam para mim! E naõ só: a CASA GISPERT vende produtos incríveis, os melhores: azeite, açafrão, torrones, embalagens maravilhosas; alguns meses do ano, sorvetes, inesquecíveis, feitos ali. Tive medo de pesquisar na internet se a Casa Gispert ainda estava ali…suspiro de alívio. Ela está. Tenho que voltar a Barcelona. Urgente.

MERCADO BOQUERIA- falar do Mercado parece tolice, quando tanta gente e tanto guia já coloca o Mercado como uma das atrações principais de Barcelona, ao lado da Sagrada Família. Mas para mim, não é. O MERCADO pode ser MIL MERCADOS, depende da hora que você vá, e do dia. Uma coisa é esse mercado lotado de turistas, sem que você consiga nem se mexer direito, e com o humor dos vendedores nem sempre, digamos, convidativo…outra coisa é chegar no Mercado pela manhã, quando o dia a dia se mostra de verdade. E você pode fazer suas compras, conversar com os vendedores, aprender infinitas receitas vindas do mar (minhas melhores combinações saíram do MERCADO BOQUERIA: alcachofras com lula, presunto crú com cava e vôngole, pulpitos com huevos revueltos e assim vai.) e COMER essas receitas. O mercado está cheio de lugares em que sentamos na “barra”- ( balcão) e deixamos o dono do pedaço escolher por nós- são sempre as melhores descobertas- para quem tem gula como eu, nada melhor que tomar um café da manhã assim: cheio de fortes emoções. E daí que é cedo para alcachofras com lulas? é o melhor horário do mercado.

Foi aí também que fiz um dos meus melhores e mais simpáticos amigos. PETRÁS. Todos os dias, eu o via de longe, escolhendo cogumelos e trufas, ocupadíssimo. Ele me fazia lembrar um grande urso na floresta. Altíssimo, de barba, sem muitos sorrisos. Eu tinha até medo de me aproximar dele. Mas eu não entendia de cogumelos, ceps, trompets de la morte, trufas, trufas e mais trufas. e eu queria aprender. E se ele é um urso, eu sou uma mula empacada, que não saía dali. No começo, eu só ganhava alguns grunhidos, talvez alguns resmungos e várias palavras em catalão, que sempre foi o mesmo para mim que ouvir mandarim. Devo ter ganho pela insistência, ele deve ter pensado- vai gostar assim de cogumelos…- mas não eram os cogumelos, era a curiosidade. E graças a ela, conheci o Petrás. Sua banca no Mercado, provavelmente, é a mais cheia do pedaço. Os bons restaurantes, compram dele e isso incluía o melhor do mundo naquela época: o extinto EL BULLI do chef catalão FERRAN ADRIÁ. Foi com Petrás e a esposa dele que fui com o Fábio para um dos jantares mais especiais da nossa vida. Sem saber. Petrás apenas me disse:” sexta feira vou levar você e seu marido para jantar fora. Em um lugar excelente”. Só não sabia que esse lugar excelente era simplesmente o EL BULLI, sonho de dez entre dez dos alunos do  Espaisucre (onde eu estudava) e eu estava lá…com o urso mais entendido de cogumelos que eu já vi na minha vida. Tenho saudades dele. Nem sei se ainda lembra de mim…afinal, são tantos anos…ficou para mim o LIVRO que ele escreveu sobre o assunto- COCINAR CON SETAS- RECETAS Y CONSEJOS-LLORENÇ PETRÁS. Em receitas IMPOSSÍVEIS de reproduzir por aqui, não temos simplesmente a matéria prima para isso. Mas nos três anos que morei nessa cidade única, acho que os cogumelos foram os ingredientes que mais entraram na minha panela… Querem só uma palhinha????  rebozuelos anaranjados a provenzal, níscalos al vino Rioja, setas de los cabelleros agridulces, parasoles al estilo de Santa Coloma, pies azules a la sidra…e vamos pela floresta… Sério: quem for para BARCELONA, não deixe de ir no PETRÁS, compre o livro só para lembrar do dia, mas traga na mala, vários, vários, AZEITES COM TRUFA BRANCA, os que ele faz REALMENTE valem a pena.

Continuo? Outra lugar de comer assim, NA BARRA,… esse sim, conhecido dos turistas do mundo inteiro, mas nem por isso,  um lugar “pega turista”, como todos aqueles enfileirados pela LAS RAMBLAS- esses, eu sempre passei batido, por favor. Esse é para turistas que PESQUISAM, essa É a grande diferença. Em uma outra pracinha escondida do meu bairro do coração, PLAZA DE LES OLLES, está o ABSURDO CAL PEP, com seus frutos do mar que de tão frescos, ainda pensam estarem vivos…não tem cardápio, afinal, não dá para saber o que vem na rede. Tudo é um caos organizado por eles, os chefs da barra- que vão aos gritos, soltando navajas (quem já comeu????), lulas, vôngoles, polvos. Eu só dispenso a fritura. Eu e o Pep discutimos por causa do limão. Ele é contra, eu sou a favor…fritura sem limão, não dá…e para ele, o limão só mascara o sabor do mar…então, pulemos a discordância para mares mais calmos, em que o jerez, esse destilado que me tornei apaixonada, brilha ao lado de camarões grelhados com alho e pimenta “guindilla”, em cumbucas de barro fervendo. Fui inúmeras vezes à barra do CAL PEP, nunca me cansei desse lugar barulhento, confuso, delicioso, basta saber que horas chegar. Ele também tem um livro e diria que ainda mais difícil que o do Petrás, porque o dele, só percebi depois, está em CATALÃO…outra palhinha? saltat de gambeta amb confitura de tomaquet, xipirons amb carxofes, calamarsets amb mongetes tendres, sípies amb bolets i cloisses. Tá. Eu avisei. Mas o CAL PEP vocês não percam.

E encerrando por hoje, como quase tudo foi peixes e barras, vou para o frio, chuva e um domingo escuro. CAELLUM. Querem uma pista?  “que sabios monjes elaboraban rezando en silencio conventual, mientras contemplaban com arrobo los alambiques y guardaban sus secretas recetas dentro de sus muros y con tres salves, un padre nuestro y la gracia de una mano se hace el milagro de la cocina”… A CAELLUM é uma casa de chá original, com uma cripta cheia de velas e doces conventuais para tardes de domingo chuvosas…e embalegens lindas para trazer um pouco de santidade para casa. Pesquisei e vi que ainda está lá. ainda existe. Tantos chás tomados ali, escondida na cripta, sempre escrevendo. Yemas de Santa Teresa, Glorias de Albaricoque, Huesos de Santo expidito, Manto de Monja. AMÉM.

Categories: Viagens

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